Antigamente, se morria em 1907, digamos, aquilo sim é que era morrer.
Morria gente todo dia, e morria com muito prazer, já que todo mundo sabia que o Juízo, afinal, viria, e todo mundo ia renascer.
Morria-se praticamente de tudo.
De doença, de parto, de tosse.
E ainda se morria de amor, como se amar morte fosse.
Pra morrer, bastava um susto, um lenço no vento, um suspiro e pronto, lá se ia o nosso defunto para a terra dos pés juntos.
Dia de anos, casamento, batizado, morrer era um tipo de festa, uma das coisas da vida, como ser ou não ser convidado.
O escândalo era de praxe.
Mas os danos eram pequenos.
Descansou. Partiu. Deus o tenha. Sempre alguém tinha uma frase que deixava aquilo mais ou menos.
Tinha coisas que matavam na certa. Pepino com leite, vento encanado, praga da velha e amor mal curado.
Tinha coisas que têm que morrer, tinha coisas que têm que matar.
A honra, a terra e o sangue mandou muita gente praquele lugar.
Que mais podia um velho fazer, nos idos de 1916, a não ser pegar pneumonia, e virar fotografia?
Ninguém vivia pra sempre.
Afinal, a vida é um upa.
Não deu pra ir mais além.
Quem mandou não ser devoto de Santo Inácio de Acapulco, Menino Jesus de Praga?
O diabo anda solto.
Aqui se faz, aqui se paga.
Almoçou e fez a barba, tomou banho e foi no vento.
Agora, vamos ao testamento.
Hoje, a morte está difícil.
Tem recursos, tem asilos, tem remédios.
Agora, a morte tem limites.
E, em caso de necessidade, a ciência da eternidade inventou a crônica.
Hoje sim, pessoal, a vida é crônica.
(Paulo Leminski)
domingo, 2 de agosto de 2009
Millôr...
"Os uísques das nossas noites têm de ser pagos com o suor dos nossos dias"
(Millôr Fernandes)
(Millôr Fernandes)
segunda-feira, 22 de junho de 2009
Cartas da Prisão (trechos)
* Era preciso um Deus que se fizesse o último dos homens; nascido num estábulo, perseguido pelos fariseus, dormindo à beira das estradas, cuspido no rosto, coroado de espinhos e pregado numa cruz. Eu jamais poderia crer num Deus que não tivesse, ele próprio, sido o mais oprimido dos homens. Nem poderia ter uma fé que não tivesse como centro a Páscoa.
* Mas, a vida é isto mesmo: uma árdua e imprevisível caminhada em direção do eterno. É lá que nos encontraremos e ficaremos juntos para sempre. Por isso só vale a pena viver na medida em que nossos gestos são gestos de amor, pois só o amor é absoluto, radical, transformante e profundamente unificante. Esse amor nos une em qualquer circunstãncia, tempo e lugar.
* A perda da liberdade não pode acarretar a perda da dignidade.
* O sofrimento é tanto menos, quanto mais somos capazes de assumi-lo, dominá-lo e transformá-lo.
* Elite e subproletariado caracterizam-se pela ociosidade e marginalidade de seus membros, violência de seus métodos de sobrevivência, esterilidade intelectual, carência de padrões, de consciência crítica e de perpectiva histórica. Na expressão de Ortega, têm vida apenas como processo biológico e não como processo biográfico. O que as diferencia é o fato de a primeira situar-se no cume da pirâmide social como detentora do poder e a segunda situar-se na base, abaixo da superfície, como a camada mais oprimida, desprovida inclusive de qualquer resquício de consciência de classe. Entre os seus membros predomina o mais exacerbado individualismo, são incapazes de se unir mesmo em função de seus interesses fundamentais e nada mais têm a perder.
* A solidão pode significar demissão enquanto a buscamos para fugir dos outros e das responsabilidades que nos aguardam. Então ela traz, ao covarde, o lúgubre consolo da opacidade de seus gestos e pensamentos. Mas, por outro lado, ela é indispensável ao homem engajado, por mais ativa e atribulada que seja a sua práxis. Ela o impede de ser tragado pelo ativismo que põe em risco o próprio êxito da luta e proporciona o recuo necessário à visão de conjunto, à crítica e autocrítica. Sem ela o entusiasmo pode conduzir ao fanatismo, o poder à prepotência, a fé ao fetichismo e ao ritualismo. Nela, ao contrário, o homem se abastece, recupera suas energias criativas, areja o espírito, avalia corretamente o real e, sobretudo, recobra o bom senso. Colocando o homem diante de si mesmo, a solidão é comom um espelho no qual ele vê tudo aquilo que em sua vida é detrito, carga supérflua, poeira acumulada - e essa limpeza purifica e renova-o.
(Frei Betto)
* Mas, a vida é isto mesmo: uma árdua e imprevisível caminhada em direção do eterno. É lá que nos encontraremos e ficaremos juntos para sempre. Por isso só vale a pena viver na medida em que nossos gestos são gestos de amor, pois só o amor é absoluto, radical, transformante e profundamente unificante. Esse amor nos une em qualquer circunstãncia, tempo e lugar.
* A perda da liberdade não pode acarretar a perda da dignidade.
* O sofrimento é tanto menos, quanto mais somos capazes de assumi-lo, dominá-lo e transformá-lo.
* Elite e subproletariado caracterizam-se pela ociosidade e marginalidade de seus membros, violência de seus métodos de sobrevivência, esterilidade intelectual, carência de padrões, de consciência crítica e de perpectiva histórica. Na expressão de Ortega, têm vida apenas como processo biológico e não como processo biográfico. O que as diferencia é o fato de a primeira situar-se no cume da pirâmide social como detentora do poder e a segunda situar-se na base, abaixo da superfície, como a camada mais oprimida, desprovida inclusive de qualquer resquício de consciência de classe. Entre os seus membros predomina o mais exacerbado individualismo, são incapazes de se unir mesmo em função de seus interesses fundamentais e nada mais têm a perder.
* A solidão pode significar demissão enquanto a buscamos para fugir dos outros e das responsabilidades que nos aguardam. Então ela traz, ao covarde, o lúgubre consolo da opacidade de seus gestos e pensamentos. Mas, por outro lado, ela é indispensável ao homem engajado, por mais ativa e atribulada que seja a sua práxis. Ela o impede de ser tragado pelo ativismo que põe em risco o próprio êxito da luta e proporciona o recuo necessário à visão de conjunto, à crítica e autocrítica. Sem ela o entusiasmo pode conduzir ao fanatismo, o poder à prepotência, a fé ao fetichismo e ao ritualismo. Nela, ao contrário, o homem se abastece, recupera suas energias criativas, areja o espírito, avalia corretamente o real e, sobretudo, recobra o bom senso. Colocando o homem diante de si mesmo, a solidão é comom um espelho no qual ele vê tudo aquilo que em sua vida é detrito, carga supérflua, poeira acumulada - e essa limpeza purifica e renova-o.
(Frei Betto)
Estratégia
Dia vai vir
Você vai ter que travar
Batalhas de verdade
Ai da tua estratégia
Ai da tua tática
ai da tua defesa
ai do teu ataque
Se você não fez bom uso
Do tempo da sua paz
Pense nisto, rapaz
E nunca, nunca, nunca mais
Olhe pra frente
Sem antes olhar para trás
(Paulo Leminski)
Você vai ter que travar
Batalhas de verdade
Ai da tua estratégia
Ai da tua tática
ai da tua defesa
ai do teu ataque
Se você não fez bom uso
Do tempo da sua paz
Pense nisto, rapaz
E nunca, nunca, nunca mais
Olhe pra frente
Sem antes olhar para trás
(Paulo Leminski)
Lygia Fagundes Telles...
O preço da criação literária seria mesmo o sofrimento? Penso na minha experiência e lembro que justamente nos instantes mais agudos das minhas atribulações eu não consegui escrever uma só palavra. Mesmo depois, na convalescença, se vinha a vontade, faltava a energia, o movimento era apenas da alma. Olhava para a minha mesa como alguém com sede fica olhando um copo d´água: quer beber mas fica rodeando o copo, faz outras coisas na frente embora pense o tempo todo na água, não faz o gesto essencial para tomá-la. Não sei dizer se os frutos colhidos mais tarde (alguns até doces) teriam vindo dessa figueira brava.
(Lygia Fagundes Telles)
(Lygia Fagundes Telles)
Mário Pirata...
A mais bela ponte construída no planeta é a distância entre um olhar e outro.
(Mário Pirata)
(Mário Pirata)
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